domingo, 29 de agosto de 2021

 

Magia Enoquiana: de John Dee aos dias de hoje

A Magia Enoquiana foi praticada e estudada em diversas manifestações ao longo dos últimos séculos, passando por John Dee, pela Golden Dawn, Aleister Crowley e acadêmicos contemporâneos. Mas, afinal, de onde veio e onde está hoje a tal Magia Enoquiana?

Magia Enoquiana: de onde veio?

Segundo o Antigo Testamento, Deus criou o mundo através de uma língua. As palavras que ele proferiu foram registradas no Livro do Discurso de Deus. É nesse livro que podemos encontrar, além da história da criação do mundo, as chaves para as portas do céu e detalhes sobre o passado, presente e futuro.

Ainda no Paraíso, Adão dominava fluentemente essa língua e, portanto, se comunicava perfeitamente com os anjos e com Deus. Mas perdeu essa capacidade de comunicação quando foi expulso do Jardim do Éden. Teve, portanto, de criar uma outra linguagem para se comunicar com a sua família e com os demais que vieram depois dele.

Aí entra Enoque, que dá nome ao sistema Enoquiano, por ter estabelecido novamente contato com esses anjos. Ele teria transcrito, através do contato com esses anjos, 366 livros que buscavam realinhar novamente as linguagens de ambos os lados. Durante o dilúvio, essas obras foram perdidas e, portanto, os últimos registros dessa tentativa de comunicação com os anjos. Seria essa uma história para esconder as palavras de Deus do alcance de todos ou uma desculpa para “dar como perdido” algo que realmente nunca existiu?

John Dee e Edward Kelley: recuperando a língua dos anjos

Muitos teóricos tentaram reconstruir, através de pesquisas e abordagens através do hebraico antigo, a língua celestial, mas nenhum deles havia chegado a resultados satisfatórios. É aqui que se destacam John Dee e seu vidente, Edward Kelley.

Trabalhando inicialmente com uma série de grimórios salomônicos (como, por exemplo o Livro das Sombras de Honório, que havia sido escrito apenas dois séculos atrás), os dois travaram contato novamente com os mesmos anjos com os quais Enoque teria conversado.

Esses anjos, além de retransmitirem os ensinamentos dados ao antigo profeta, ensinaram ainda a Dee e Kelley uma nova série de operações mágicas. Entre estas operações, havia a forma correta de convocar os anjos dos planetas e como conversar, inclusive, com Enoque, em sua nova morada. Revelaram também profecias sobre o fim do mundo, os mecanismos de funcionamento do universo, que se dividiria em dezenas de Aethyrs, ou éteres, e se mostraram bastante insatisfeitos com o atual estado da humanidade.

É natural e compreensível que, diante de revelações tão incríveis (fossem elas reais ou não), John Dee tenha nutrido um interesse de vida inteira por esta via de exploração do desconhecido. Todos os escritos e livros registrados por Dee e Kelley receberam posteriormente o nome de Magia Enoquiana.

Magia Enoquiana na Golden Dawn

Desde sua fundação, a Golden Dawn almejou incluir, entre seus trabalhos, a Magia Enoquiana. Eles tiveram acesso aos escritos de Dee, mas apenas a uma fração deles, que continha a parte do sistema de skrying e como chamar os anjos das estrelas. Muitos livros faltavam nessa coleção; portanto, o sistema desenvolvido em cima desses diários de Dee era muito diferente do que a Magia Enoquiana “original”, por assim dizer.

A organização deste sistema reconstruído trazia outras maneiras de ler os nomes dos anjos, como chamá-los e como aplicar os quatro elementos nas Fortalezas. Estas diferenças caracterizam o sistema de Magia Enoquiana da Golden Dawn como algo bastante distante do sistema de Dee.

A Magia Enoquiana da Golden Dawn era encarada como uma forma de evocar, contatar e comandar diversos espíritos. Esta variação da Magia Enoquiana lançava mão de artifícios curiosos, como o jogo de Xadrez Enoquiano, desenvolvido por S. L. MacGregor Mathers e W. Wynn Wescott, usado primariamente como meio de divinação.

Hoje, os diários de Dee são facilmente encontrados em sua forma completa, até mesmo fora das grandes bibliotecas, das ordens iniciáticas e dos círculos acadêmicos. Qualquer leitor e estudante ocultista que esteja disposto a gastar o seu latim pode mergulhar na Magia Enoquiana. Talvez, se no século XIX houvesse essa facilidade de acesso à obra, os estudos da Golden Dawn teriam tomado rumos completamente diferentes.

Aleister Crowley e a Magia Enoquiana

Uma das mais importantes bases do conhecimento mágicko de Aleister Crowley veio da tradição da Golden Dawn. Depois de alguns anos como membro da Ordem, Crowley dominou as metodologias que lá aprendeu, e estava ciente de que a Golden Dawn não havia reproduzido fielmente o sistema recebido por Dee e Kelley.

Assim, optou por criar um novo sistema funcional para explorar os Aethyrs. Esta exploração era uma forma de melhor compreender como funcionam as engrenagens dos diversos planos de existência. A grande marca registrada da abordagem de Crowley consistia em inovar, baseado em uma experimentação pessoal do sistema.

Em uma tentativa de invocar esses anjos, o magista relata ter sentido a aproximação de um anjo, com grandes asas de águia, e que esse anjo teria trazido palavras apocalípticas. Depois deste episódio, suas experiências tiveram uma pausa de quase uma década, até a sua vivência na Algéria, em 1909.

Em 17 de novembro desse ano, Crowley chegou à cidade de Argel, no norte da África, com seu pupilo Victor Neuburg. A viagem tinha, inicialmente, propósitos unicamente “recreativos”, mas terminou com Crowley relatando um conjunto de vinte e oito visões. Este período é relatado com mais detalhes na biografia O Olho no Triângulo. Os relatos da experiência direta de Crowley ao explorar os Aethyr estão reunidos em A Visão e A Voz, e figuram entre as mais importantes fontes da doutrina Thelêmica e da literatura contemporânea da Magia Enoquiana.

A influência de Crowley vai muito além das fronteiras de Thelema. Os experimentos do magista com os Aethyrs se tornaram paradigmáticos em diversas correntes ocultas e sua influência nos caminhos posteriores tomados pela Magia Enoquiana é de vital importância para a tradição esotérica ocidental.

Magia Enoquiana Hoje

Pode-se dizer que seria virtualmente impossível que uma só pessoa desse conta da hercúlea tarefa de dar unidade a um sistema enoquiano coeso. Tal empreendimento passaria, necessariamente, por estudar em profundidade a profusão de material manuscrito de John Dee (em latim, diga-se de passagem) e compreender o sistema reconstrucionista da Golden Dawn. Também seria necessário cruzar todas estas referências com o sistema inovador de Aleister Crowley e com as experiências registradas por ele. Não seria possível chegar tão alto sem subir nos ombros de gigantes.

Por volta da década de 1990, com a maior facilidade de comunicação trazida pela Internet, estudiosos acadêmicos e praticantes de diversas vertentes de sistemas enoquianos passaram a se comunicar e trocar experiências. Este foi um ponto de virada para a Magia Enoquiana.

Havendo toda uma comunidade de aficionados deste renascer enoquiano, cada qual com suas especializações, temos hoje uma visão mais próxima do que seria, exatamente, o sistema recebido (ou desenvolvido) por John Dee. E, consequentemente, é muito mais fácil, nos dias de hoje, apontar em que pontos a Golden Dawn acertou e em que pontos errou. A abordagem de Crowley, ainda que seja declaradamente inovadora e que não se proponha a seguir engessada por metodologias ancestrais, ainda encontra diversas similaridades com a visão neo-enoquiana que emergiu na academia nos últimos trinta anos.

Elos

Todas as principais referências da Magia Enoquiana – John Dee, Edward Kelley, a Golden Dawn, Aleister Crowley e os enoquianos contemporâneos – têm abordagens distintas entre si. Mas essa é, afinal, a essência da magia: não se trata apenas de repetir fórmulas, mas de explorar o desconhecido, receber novos conhecimentos e conquistar novos poderes, mesmo que sobre si mesmo. Não seria possível termos o conhecimento sobre Magia Enoquiana que temos hoje se qualquer um dos elos dessa corrente não tivesse sido forjado.

Se você se interessa pelos trabalhos mágicos de Aleister Crowley, o Liber ABA, sua obra máxima, está em financiamento coletivo no Catarse. Não deixe de conferir e ter, em português e em sua completude, essa obra indispensável ao estudante de ocultismo.

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Aleister Crowley and the Hidden God

Depois de um longo período longe das prateleiras, O Renascer da Magia foi trazido de volta ao Brasil pela Penumbra Livros, que pretende trazer ao público brasileiro, pela primeira vez em português, os demais volumes das Trilogias Tifonianas. Nessa série, daremos um gostinho do que está por vir. Falaremos um pouco sobre cada volume das Trilogias Tifonianas de Kenneth Grant, começando pelo segundo volume: Aleister Crowley and the Hidden God (Aleister Crowley e o Deus Oculto). Uma visão mais detalhada do primeiro volume, O Renascer da Magia, pode ser encontrada aqui.

Aleister Crowley and the Hidden God

Kenneth Grant causou uma verdadeira revolução no conhecimento mágico na década de 1970, ao publicar O Renascer da Magia. O livro seguinte, Aleister Crowley and the Hidden God explora em maior profundidade as tendências mais obscuras da magia, focando na natureza da magia sexual.

Grant apresenta uma visão completa do Vama Marg e do Culto da Mulher Escarlate. Essa é até hoje uma das mais profundas abordagens já apresentadas sobre estes temas. Seu trabalho sobre magia onírica ainda é profundamente influente. Sua ressonância e seu refinamento podem ser notados particularmente na obra de Andrew Chumbley.

Aleister Crowley and the Hidden God traz um resumo da vida e dos ensinamentos de Aleister Crowley, mergulhando especialmente nos significados esotéricos e tântricos, comparando-os com os Tantras e com outras tradições. Grant também explora significados mais profundos das técnicas mágicas usadas na Aurora Dourada e outras ordens ocultas.

Um dos elementos chave de Aleister Crowley and the Hidden God é a fórmula de Babalon, ou da Mulher Escarlate, e o uso sagrado do sexo e dos fluidos corporais, ou Kalas. Grant revela que estes se dividem em 16 tipos, relacionados com o verdadeiro poder da serpente, ou Kundalini. Enquanto muitos vêem o Liber AL Vel Legis como um texto espiritual por si, Grant trata dele como uma transmissão, como um Tantra. Similarmente, a O.T.O., que muitos viam como uma simples estrutura administrativa ou ritualística, é retratada por Grant como possuidora de um profundo significado tântrico.

O controle de sonhos tem uma longa história, ligada às seitas do budismo e do hinduísmo. Dion Fortune Austin Osman Spare também têm seus próprios métodos. Grant explora, em detalhes, o controle dos sonhos através da magia sexual. A particularidade do método tântrico ensinado por Crowley é que ele tem o potencial de ser aterrado, transformando a realidade objetiva. Elaborando a partir disso, surge um completo entendimento do Sabbat das Bruxas, bem como da natureza secreta da bruxaria do ponto de vista da magia sexual e do poder do Kundalini.

Alguns temas abordados em Aleister Crowley and the Hidden God ainda influenciam muito além de Thelema, Bruxaria Tradicional e os mais profundos buscadores da Arte. Com essa obra perspicaz, Grant explora a forma como o microcosmo e o macrocosmo se relacionam, e os mistérios encontrados nas conexões entre o corpo, os planetas e as forças além do espaço e do tempo.

Com material de Living Traditions.

Veja Também

Uma Biografia de Kenneth Grant

Resenha de O Renascer da Magia

O Renascer da Magia na Loja da Penumbra Livros

Aleister Crowley and the Hidden God

 

Geografia Oculta: Museu dos Alquimistas e Magistas

Você já se imaginou visitando um museu onde pudesse encontrar mais sobre a história de alquimistas e magistas? Entrar em contato com manuscritos, obras completas e ainda fazer um passeio guiado que fala sobre John Dee e Edward Kelley? Se você ficou curioso com esses poucos detalhes, com certeza adoraria visitar o Museu dos Alquimistas e Magistas da Cidade Velha, em Praga, na República Tcheca.

[descrição] sala escura, com marcações no chão que se assemelham a um círculo mágico. há 3 figuras humanas, vestidas em robes cerimoniais.
uma das salas interativas do museu

Rodolfo II, o imperador excêntrico patrocinador do Oculto

O museu existe em Praga por um motivo muito peculiar: ali, muitos ocultistas, alquimistas e magistas tiveram passe-livre para seus estudos e pesquisas. Eles eram encorajados por alguém de grande poder: Rodolfo II, vigésimo terceiro imperador do Sacro Império Romano-Germânico, era um entusiasta das artes ocultas. Ele ficou conhecido como um dos mais excêntricos monarcas europeus, sempre rodeado de astrólogos e baseando suas escolhas políticas nas leituras feitas por eles. Ele foi patrono da Alquimia, sendo o mecenas de diversos magistas e financiando a impressão de literatura alquimista. Foi, inclusive, o protetor de Giuseppe Arcimboldo, um dos precursores do Surrealismo.

Personalidades no museu

Praga é conhecida pela alcunha de “a cidade dos cem pináculos”, e isso se deve muito aos alquimistas e magistas que nela habitavam ou trabalhavam. As torres eram os locais preferidos dos magos, onde podiam trabalhar e fazer seus experimentos sob a tutela de Rodolfo II. Entre esses magistas e alquimistas estavam John Dee e Edward Kelley, que também foram patrocinados pelo imperador, que transformou Praga não-oficialmente na cidade das artes ocultas. Kelley morou exatamente na casa onde hoje se encontra o museu.
Inicialmente, o museu é permeado por textos explicativos e retratos de personalidades associadas à Alquimia, além dos próprios magistas. Ainda pode-se achar informações sobre Carlos IV e até Shakespeare.

[descrição] visão de uma das salas do museu, onde há em primeiro plano uma mesa com um livro aberto. nas páginas, pode-se ver informações sobre Edward Kelley
documentos sobre os alquimistas: relatos de John Dee e Edward Kelley

Atrações do museu

Na primeira parte do museu, pode-se encontrar informações sobre alquimia e os alquimistas da época, todas embasadas por professores da Charles University. Há também exibições interativas. Na parte superior do museu, que é acessível através de uma escada de madeira projetada por Edward Kelley, há um laboratório alquímico, onde ele trabalhou e passou os três últimos anos de sua vida.

[descrição] uma das mesas do museu, repleta de instrumentos usados nos estudos alquímicos.
os instrumentos de um alquimista podem ser vistos na exibição permanente

A primeira sala do laboratório, que serve como depósito e biblioteca, também é uma sala de espera para quem deseja entrar no laboratório. Há uma visita guiada especial e um guia especializado que guiará por toda a parte do sótão. A segunda sala é um laboratório separado, onde pode-se encontrar a representação da criação do homúnculo e demais réplicas de itens importantes para a história da Alquimia.

[descrição] uma das salas do museu, onde pode-se ver o mini-esqueleto humano e o homúnculo.
réplicas do esqueleto em miniatura o do homúnculo

Na parte posterior ao museu, ainda há um pequeno pub, que serve pequenas refeições e drinks temáticos. Em suas paredes e decoração ainda pode-se ler mais informações sobre Alquimia, os alquimistas e magistas e seus experimentos.

Informações e serviços

Endereço: Jánský vršek 8, Prague 1
Telefone: +420 725 952 652
Booking: mysteriapragensia@gmail.com
O museum cobra ingresso, que no momento da publicação desse post custa em torno de 9 euros (220 coroas tchecas, ou 42 reais).

(Todas as fotos são do site oficial do museu e do pub, Mysteria Praguensia).

John Dee: de Conspirador a Mago Oficial

Todo mundo já ouviu falar do célebre Dr. John Dee. Astrólogo da Rainha Elizabeth I, matemático, jurista, filósofo, alquimista, hermetista e criador do sistema de magia Enoquiana. John Dee viveu no século XVI, e foi um grande influenciador do Renascimento Inglês – o movimento que deu origem a figurinhas ilustres como William Shakespeare, Francis Bacon e Christopher Marlowe. Enquanto esses outros artistas ficaram conhecidos por sua obra literária (poética, teatral, dramática, filosófica), John Dee é lembrado até hoje por ter sido um grande mago.

Tem alguma coisa errada aí. Se ele era um grande mago, na Europa, durante o século XVI, ele não deveria ter sido queimado na fogueira?

Os Atos de Feitiçaria da Inglaterra

As coisas não estavam fáceis no cenário religioso da Inglaterra do século XVI. Havia um bocado de tensão religiosa, basicamente por conta das várias vertentes de cristianismo brigando por poder nos altos escalões do governo. E quem tinha a autoridade (o Rei) decidiu criar leis que fossem, é claro, favoráveis ao seu grupo favorito.

Até então, bruxaria não era um crime comum, e sim um delito eclesiástico. Os acusados eram julgados por tribunais da Igreja (tecnicamente não eram a Inquisição), e não pela justiça comum.

Ato de Feitiçaria de 1542

O adorável Rei Henrique VIII (que também era o líder da Igreja Anglicana) criou uma lei que punia com a morte aqueles que praticassem:

exorcismo, feitiçaria, encantamento, (…) feitiço (…), consumir o corpo de qualquer pessoa, elemento ou deuses, provocar ilicitamente qualquer pessoa a amar, desprezar Cristo, (…) derrubar qualquer Cruz

Basicamente qualquer coisa que não fosse estritamente cristã. Quanto mais Anglicano melhor. Ainda bem que em 1547, o mais simpático Eduardo VI suspendeu essa lei.

Ato de Feitiçaria de 1563

A Rainha Elizabeth I era muito mais tolerante com práticas mágicas, mas precisava botar ordem na casa. Ela criou uma nova lei que previa pena de morte apenas para as práticas de bruxaria que causassem morte ou destruição. O que é bem razoável, considerando que causar morte e destruição sem magia também deveria ser configurado como crime.

Jovem John Dee, garoto problema na faculdade

John Dee vinha de uma família rica. Seu pai era cortesão do Rei Henrique VIII (o mesmo que criou a lei maluca da pena de morte), e ele mesmo clamava ser descendente distante de um príncipe de Gales. Sendo assim, ele pôde receber educação da melhor qualidade.

Dee frequentou a universidade de Cambridge entre 1542 e 1546. Se você prestar atenção, vai perceber que isso foi justamente no curto período em que a lei anti-bruxaria de 1542 estava valendo. Tempos difíceis para quem se interessava pelo oculto.

Mesmo assim, o jovem John Dee resolveu aproveitar a ampla biblioteca de Cambridge para estudar nada menos do que dezoito horas por dia. Sim, é isso mesmo. Como muitos gênios ao longo da história, Dee só dormia quatro horas por dia. Reservava duas horas para as refeições. O resto era estudo. (Desnecessário dizer, na época não havia preocupações bobas como exercícios físicos, vida social e higiene pessoal, o que facilitava um pouco o gerenciamento do tempo.)

Com dezoito horas diárias de estudo e grande parte dos livros disponíveis no “mundo civilizado” ao seu alcance, John Dee pôde se dedicar aos estudos de alquimia e hermetismo. Repare um pequeno detalhe na lei de 1542: estudar não era crime, e Dee tirou vantagem disso.

Mesmo assim, quase foi enquadrado por feitiçaria. E justamente por um ato completamente científico. Ele projetou e construiu um besouro mecânico, para uso como elemento cenográfico em uma peça de teatro. O resultado foi tão inacreditável, tão vivo, tão real, que diziam as más línguas que não era tecnologia, era feitiçaria. E por pouco John Dee não foi enquadrado por algo de que era inocente.

Dee na Corte Britânica

O recém-formado John Dee, já versado nas mais distintas artes, era muito procurado por seus conhecimentos. Viajou pela Europa e conheceu quase todos os grandes filósofos, cartógrafos, matemáticos e cientistas de sua época. Suas palestras em Paris sobre Euclides lotavam, sempre. Era uma pequena celebridade. De volta à Inglaterra, seguiu os caminhos do pai cortesão, e foi apresentado ao Rei Eduardo VI (a pessoa razoável que suspendeu a lei de Henrique VIII).

Ele até se dava bem com Eduardo VI, e não havia nenhuma lei anti-bruxaria na época. Mas esse rei não ficou muito tempo no trono, sendo substituído pela infame Rainha Maria I. Essa simpática monarca queimou na fogueira quase 300 dissidentes religiosos, o que rendeu a ela o apelido de “Maria Sangrenta”. (Maria I sobrevive até hoje em nossas memórias, na forma de um drink de gosto duvidoso.) E se centenas de pessoas foram parar na fogueira durante seu curto reinado, é claro que John Dee não iria passar incólume.

John Dee, o Conspirador

Diz o ditado que é impossível agradar a todos. John Dee certamente não agradou a Maria I. Ela deu um jeito de acusá-lo legalmente, com a alegação de “calcular e conjurar para enfeitiçar a Rainha”.

Mesmo não havendo leis anti-bruxaria vigentes nesse exato momento, conspiração contra a realeza é sem dúvida um crime em qualquer monarquia que se preze. John Dee passou meses na cadeia. Mas acabou sendo solto.

No Reinado de Elizabeth I

O reinado de Maria I também não durou muito, e logo sua irmã, Elizabeth I, assumiu a coroa. (Importante ressaltar que, a despeito da idade avantajada e da semelhança dos nomes, Elizabeth I não era a mãe da atual Rainha da Inglaterra, Elizabeth II.) E foi aí que John Dee se deu bem.

Elizabeth I era muito mais flexível quando o assunto era magia, bruxaria ou religião. Para começo de conversa, ela não queimou centenas de pessoas, ao contrário de sua irmã. Em segundo lugar, foi ela quem criou a lei de 1563. Na verdade, ela gostava do negócio.

Quando ficou claro que Elizabeth I seria a nova Rainha, ela pediu para John Dee, a quem já conhecia, para calcular astrologicamente a data mais propícia para sua coroação. Depois de coroada, acolheu Dee como seu astrólogo real, e lhe passou algumas missões importantes. Entre elas, revisar o calendário vigente (não é pouca coisa!), e anular magicamente os efeitos de uma possível “magia negra” feita contra ela: um quadro com sua imagem, perfurado por um prego no coração.

Era tudo de que nosso herói precisava: uma monarca que não apenas não iria prendê-lo e queimá-lo, mas que pagaria suas contas e daria relevância ao seu trabalho. E assim começou, de fato, a carreira de um dos maiores magos da história. Mas isso é assunto para um outro dia.

John Dee: de Conspirador a Mago Oficial